terça-feira, 13 de novembro de 2012

Mensagem

Li essa mensagem no Jornal de domingo, gostei e fui buscá-la na net. Espero que gostem:
 
 
Arte de ser criança
 
FREI BETTO

Aluno do Jardim de Infância Bueno Brandão, em Belo Horizonte, em minha sala de aula não havia carteiras, apenas umas tantas mesas de pernas curtas -adequadas à nossa estatura- e cadeiras liliputianas.

Nossas tarefas consistiam em sonhar, imaginar, rabiscar, desenhar, moldar em argila estranhas figuras, colorir com aquarela e empilhar cubos de madeira, que, sobrepostos, se transformavam em casas, pontes, prédios e castelos. Dispostos em linha reta, viravam ferrovias, carruagens, estradas. Em círculos, arenas circenses, represas ou lagos.

Encantava-me recortar cartolinas na forma de casas e colá-las -fazíamos grude com farinha de trigo e água-, pois tinha certeza de que, à semelhança de meu tio Paulo, quando crescesse eu seria um arquiteto. Esse entrelaçar de tato, visão e imaginação organizava o meu mundo interior. Bastavam poucos apetrechos para que os meus sentimentos encontrassem expressão nos objetos que eu manipulava ou nas linhas de meus desenhos.

Eles adquiriam uma certa distância relacional: eu era eu, meus pais eram meus pais, a babá era a babá; as árvores das ruas, coisas que tinham uma forma diferente de vida da minha; os pássaros falavam linguagens que só eles entendiam; e dragões, bruxas e duendes, que povoavam o meu imaginário, não eram pessoas como meus pais nem coisas como os paralelepípedos, que calçavam as ruas do bairro, e sim entidades espirituais, como Deus e os anjos, que eu venerava e com as quais mantinha uma relação de temor, reverência e fascínio.

O melhor da infância é o mistério. Povoa a criança com uma força imponderável, superior a todas as realidades sensíveis. O mistério seduz e, tecido em encantos, assusta ou atrai ao não mostrar o rosto nem pronunciar o próprio nome. Habita aquela zona da imaginação infantil tão indevassável quanto impronunciável. Nela, as conexões rompem limites e barreiras, o inconsciente transborda sobre o consciente e o sobrenatural confunde-se com o natural.

O divino permeia o humano e o insólito, como dragões e piratas; é de uma concretude que só a cegueira dos adultos é incapaz de enxergar.

Os adultos devem manter-se à distância quando a criança se encontra mergulhada em seu universo onírico. Ela sabe que carrega em si um tesouro de percepções que os olhos alheios não podem perscrutar. Recolhida a um canto, deitada em sua cama ou brincando em companhia de seus pares, ela deixa fluir os seres virtuais que habitam o seu espírito e com quem estabelece um diálogo íntimo, livre das amarras do tempo e do espaço. Tudo flutua dentro dela, graças à ausência de gravidade que a caracteriza.
Se um adulto interfere, quebra-se o encanto, apaga-se a volatilidade que a transporta a um hemisfério que não cabe na lógica adulta. O real emerge com sua implacável geometria, onde as coisas carecem de estruturas flexíveis. A vida empobrece, desprovida de colorido. Tudo se torna pesadamente aritmético, como se a ave, aprisionada ao chão, ficasse impedida até mesmo de sonhar com o vôo, reduzida aos movimentos contidos de seus passos.

Por tanta familiaridade com o mistério, as crianças são naturalmente religiosas, como se a natureza suprisse quem se encontra biologicamente mais próximo da fonte da vida de percepções holísticas contidas na vitalidade das células, na mecânica das moléculas, na identidade quântica dos átomos, onde matéria e energia são apenas faces de uma mesma realidade.

Privar a criança do mergulho no mistério, do ócio acalentador, do tempo em que ela nem sonha em crescer -seja pela penúria material, seja pelo peso esmagador da racionalidade, seja pelo trabalho precoce, seja pelo excesso de exposição à TV, que rouba-lhe os sonhos- é, afinal, amputá-la da infância.

É mutilar o ser, abortando a criança para apressar, de modo cruel, a irrupção irreversível do adulto. Ao sorriso sucede o travo amargo de quem já não logra mirar a vida como maravilha -dentro e fora de si. A insegurança aflora, denunciando carências e tornando-as vulneráveis aos sonhos químicos das drogas, já que o melhor da infância foi sonegado: sentir-se um ser amado.

(Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto, 55, frade dominicano, é escritor, assessor de movimentos pastorais e sociais, autor de "Alucinado Som de Tuba" (Ática), entre outros).